PROJETO DE DOUTORAMENTO APRESENTADO E SELECIONADO PELO DEPARTAMENTO DE ANTROPOLOGIA DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO



A IMAGINAÇÃO SIMBÓLICA NA MECÂNICA DE ALBERT EINSTEIN: um estudo do imaginário e do simbólico no conceito de relatividade.



Outubro - 2007


1 – APRESENTAÇÃO

É quase lugar comum afirmar que ao longo da História das Ciências houve apenas três revoluções científicas. A primeira, que teve lugar na Grécia antiga, quando a geometria euclidiana foi introduzida, e com essa uma concepção de corpos rígidos e configurações estáticas foi elaborada. Esse feito deu início ao reconhecimento do crucial papel do raciocínio matemático na nossa compreensão de natureza. A segunda revolução podemos dizer que chegou com o século 17, quando Galileu Galilei e Isaac Newton fundamentaram como o movimento dos corpos pode ser entendido em termos das forças entre as partículas que os constituem e das acelerações que estas forças geram.
A terceira e última revolução científica chegou com o século 19, quando Michael Faraday e James Maxwell nos mostraram que as partículas não eram suficientes, e que devíamos considerar também campos contínuos permeando o espaço, para descrever a realidade física. Estes campos contínuos combinados numa única entidade física, qual seja: o campo eletromagnético; e com este se explicaria o comportamento da luz e o resultado da propagação das suas oscilações.
Não deixa, portanto, de ser notável que em 1905, Albert Einstein, um físico à época ainda desconhecido, tenha apresentado uma surpreendente e nova concepção do funcionamento do universo, da natureza física, do espaço e da luz. E, assim, tenha também lançado novas bases às duas teorias anteriores até então consideradas como as mais revolucionárias da Física no começo do século 20. E assim, de modo surpreendente a epistemologia do espaço-tempo relativo estabelecida por Albert Einstein tenha de uma só vez, colocado em questão duas das mais importantes revoluções científicas. A primeira, a revolução da lei da gravitação de Isaac Newton apresentada no século 17, e a segunda, a teoria do campo eletromagnético formulada por Faraday e James Maxwell, no século 19.
A nova cientificidade e epistemologia, então, estabelecida por Einstein colocava em questão e de uma só vez,eliminava o determinismo newtoniano do tempo absoluto. Um paradigma que prevaleceu por mais de 200 anos na Física. E, num segundo momento, Einstein incorporava à sua nova perspectiva a noção de campo eletromagnético conforme,antes,proposta por Faraday e Maxwell. Desse modo, Einstein resolvia dois problemas pendentes na Teoria da Física. Uma mudança de paradigma na Física moderna bem como contribuía à uma nova racionalidade que começava a se estabelecer nas Ciências e no mundo moderno desde o século 19 e começo do 20: a relatividade no campo da Física e o relativismo cultural no campo das idéias. Novas categorias no pensamento humano e cientifico, ou seja: uma outra dimensão de racionalidades humana e científica.
A princípio, o viés interpretativo de nossa proposta intencionando estudar o conceito de relatividade na mecânica de Albert Einstein pode parecer distante ou não se adequar precisamente ao âmbito do campo de estudo das Antropologias do Imaginário e do Tempo. Contudo, não é esse nosso entendimento. Conforme veremos na sequência de nossa apresentação que nossa proposta se adéqua aos âmbitos das Antropologias do Imaginário e do Tempo. Propomos revisitar uma das mais importantes contribuições científicas à interpretação e à compreensão do tempo pelo Humano; e nunca antes apresentada até o século 20: o espaço-tempo relativo na mecânica de Albert Einstein.
Uma inovadora interpretação que ainda hoje, mesmo um século, após sua apresentação, continua sem uma interpretação satisfatória tanto no âmbito da Mecânica e Cosmologia e Gravitação na Física, como no âmbito da Antropologia. Uma desconcertante interpretação que continua a povoar a imaginação e os trabalhos de filósofos, físicos, historiadores e cientistas das mais diferentes áreas do conhecimento humano e da Física nos séculos 20 e 21.
Esse é nosso principal objetivo na presente proposta de doutoramento, cujo título é: “A imaginação simbólica na mecânica de Albert Einstein: um estudo do imaginário e do simbólico no conceito de relatividade”. Propomos uma análise antropológica sobre o conceito de relatividade na moderna concepção de universo segundo Albert Einstein. Para tal, propomos um estudo sobre a função simbólica em torno do conceito de relatividade. Um estudo das relações entre ciência, imaginário e o simbólico com o objetivo de discutirmos os contextos que estruturam o conceito de relatividade, tal como formulado por Einstein,quando este físico estudou e propôs o eclipse total do sol em 1919,na cidade brasileira e cearense de Sobral, como método de mensuração, de prova e de confirmação da Teoria da Relatividade Geral.
Um estudo sobre a função simbólica e os significados do conceito de relatividade. Sua relação com o eclipse total do sol de 1919 tomado como método teórico e de teste empírico. Desde então, essa moderna concepção de universo proposta por Einstein é interpretada ora, como ambígua, problemática,enigmática,controversa e paradoxal, e ora como surpreendente,genial,desconcertante e criativa.Com base nas contribuições de Thomas Kuhn através de sua obra, A Estrutura das Revoluções Científicas,Paul Feyerabend, este último através de sua obra, Contra o Método ,é possível depreendermos que as inovações científicas e a mudança de paradigma estabelecidas na Física Moderna a partir da contribuição de Albert Einstein resultaram de uma nova racionalidade acerca do tempo. Uma inovação teórica que estava em processo e que a inovação de Einstein em muito ajudou consolidar.
Os impactos das idéias e das inovações conceituais estabelecidas por Albert Einstein não repercutiram apenas na Física enquanto Ciência Natural. É possível identificarmos a ressonância e interlocução de suas contribuições sobre vários aspectos e áreas das Ciências, da cultura e da vida moderna de modo geral. Estas inovações têm sido percebidas como uma radical mudança de concepções tradicionais causando um contraste à difusão gradual de conceitos relativistas nas ciências bem como no campo da cultura, tais como, por exemplo, na pintura cubista com sua nova perspectiva de arte, no cinema de Luis Bunuel, no teatro de Antonin Artaud entre outros.
No âmbito das artes plásticas, por exemplo, as pinturas de Pablo Picasso, de Salvador Dali, de Juan Miró e de Marcel Duchamp receberam forte influência e dialogaram com a contribuição e inovação teórica apresentada por Albert Einstein, através de seu conceito de relatividade. Um conceito que trazia uma nova racionalidade ao Humano. Uma nova percepção do espaço-tempo e do universo à Ciência e à combalida e fragilizada sociedade européia do primeiro pós-guerra mundial.
No âmbito das Ciências Humanas e Sociais, a título de ilustração, podemos também citar que a Antropologia de Gaston Bachelard sofreu influência e,também dialogou com a contribuição de Albert Einstein. No campo literário, é possível notarmos o impacto, por exemplo, do conceito de cronótopo. Este como um conceito usado por Mikhail Bahktin; e tomado de empréstimo da Física de Einstein. A noção de cronótopo de Bahktin é uma variação diretamente originada do conceito de cronotype/cronótopo tal como formulado na Física de Einstein e utilizado na Teoria da narrativa do campo literário.
Tal como Einstein, Bahktin usa o termo cronótopo para designar a fusão das estruturas espaço-temporais e define a característica espaço-tempo através de formações de modo específico nos gêneros narrativos tais como o romance, o idílio, o folclore, a novela picaresca. Tal como nos ensinam John Bender e David Wellberry através de sua obra “Chronotypes: the construction of time (1991).
Assim, acreditamos que os parágrafos iniciais dessa apresentação contribuem à contextualização e à confirmação acerca do âmbito de nossa proposta nos campos das Antropologias do Imaginário e do Tempo respectivamente. Pois, aqui já podemos depreender os desdobramentos científicos, sociais e culturais advindos da Física de Einstein e do conceito de espaço-tempo relativo. Propomos discutir os contextos que estruturam o conceito de relatividade segundo a mecânica de Albert Einstein. Uma interpretação da estrutura dessa revolução conceitual que nos apresentou uma nova e arrojada concepção de Cosmologia, de gravitação e de universo. Uma revolução científica, cultural e conceitual que ainda hoje continua a suscitar debates acirrados mesmo um século após sua apresentação, inicialmente, em 1905.
E por fim, é uma proposta sobre um estudo fascinante e desafiante em razão de se ter à disposição uma enorme quantidade de literaturas, vários artigos, inúmeras conferências e simpósios que a ele tem sido dedicados desde a apresentação da Teoria da Relatividade Geral em 1905. Com o objetivo de evitar caminharmos em círculo ou de discutirmos aspectos menos relevantes do imaginário e do pensamento científico de Einstein, e mais especificamente na mecânica da relatividade, identificamos de imediato as perguntas que estruturam nossa proposta de doutoramento e que, portanto, interessam-nos analisar, a saber: 1) qual a estrutura do conhecimento na Física e mecânica de Albert Einstein? 2) que imaginário científico possibilitou Einstein propor o conceito de espaço-tempo relativo? 3) o que é relatividade num sentido antropológico 4) qual a estrutura do conceito de relatividade segundo as Teorias do Imaginário e do Tempo? 5) como se estruturam as representações de relatividade na mecânica de Einstein? 6) o que é espaço-tempo relativo na mecânica de Einstein segundo uma abordagem das Teorias do Imaginário e do Tempo ? 7) como se estruturam as representações de espaço-tempo relativo na mecânica de Einstein 8) quais os desdobramentos sociais e culturais advindos da inovação e contribuição de Einstein? 9)e por fim, porém não menos importante, como e por que a cidade brasileira e cearense de Sobral foi identificada e escolhida como lugar de prova e de confirmação da Teoria da Relatividade Geral de Albert Einstein?
2 – PROBLEMATIZAÇÃO
Em 1905, quando Albert Einstein publicou seu primeiro ensaio sobre a relatividade especial, havia um profundo problema na física teórica quanto saber se a velocidade absoluta era mensurável. O problema era tanto em nível experimental como teórico. Em nível teórico, as duas mais importantes teorias da mecânica clássica, a de Newton e a teoria eletromagnética de Faraday-Maxwell eram incompatíveis. A mecânica clássica implicava que as velocidades eram relativas e que não era possível medir uma velocidade absoluta. Contudo, a teoria de Maxwell tratava os fenômenos eletromagnéticos como propagação de ondas por um meio – o éter – e assim, de acordo com essa teoria, a velocidade da terra podia ser medida em termos absolutos quanto ao seu enquadramento etéreo.
Conforme podemos depreender da leitura do parágrafo acima, esse apresenta uma problematização do conceito de relatividade no âmbito da Física. Interpretam-se os fenômenos naturais, eletromagnéticos e astronômicos relacionados ao conceito de relatividade na mecânica de Einstein segundo as premissas científicas do campo da Física. Diferentemente, nossa problematização do conceito de relatividade situa-se no âmbito antropológico e, portanto, discute-se o conceito de relatividade como fenômeno e fato social.
Assim, a proposta do presente projeto segue a perspectiva de interpretação da Antropologia. Intencionamos discutir os problemas que, ainda persistem em torno do conceito de relatividade; e que resultam da nova mecânica introduzida por Albert Einstein. A pergunta que nós colocamos nesse momento de nosso projeto é: qual o âmbito das Teorias Antropológicas do Imaginário e do Tempo, segundo seus respectivos arcabouços teóricos, para apresentarem uma interpretação do conceito de relatividade na mecânica de Einstein?
Conforme pelo até aqui exposto, nossa resposta acerca do alcance antropológico é positivo. Intencionamos ressaltar o âmbito da teoria antropológica no estudo dos problemas epistemológicos que identificamos para estudo e da interpretação da contribuição de Einstein; quando a mecânica de Einstein se propôs complementar as duas teorias acima mencionadas da Física Clássica. Um posicionamento teórico acerca do âmbito das Teorias Antropológicas do imaginário e do Tempo que julgamos como pertinente e adequado ao estudo do conceito da relatividade na mecânica de Einstein. Conforme veremos na sequência dessa proposta e exposição.
Ainda hoje, um século passado, Einstein continua a ser considerado o maior físico do século 20. Conforme apresentamos, não há dúvida de que o impacto de suas contribuições sobre a Física Moderna foi maior que a de qualquer outro físico de seu tempo. Seus estudos e inovações conceituais trouxeram profundas modificações para as noções de espaço, tempo, cosmologia, gravitação e universo na física moderna bem como em nossa sociedade. Em 2005, um século após os feitos revolucionários de Einstein, a Unesco- Organização da Nações Unidas para o desenvolvimento da Cultura, a Sociedade Internacional de Física e a Sociedade Brasileira instituíram e celebram esse ano como o ano do centenário da Relatividade. Celebrou-se 1905, como o segundo “annus mirabilis”” da Física com debates em todo o mundo através de conferências e simpósios em torno da Teoria da Relatividade Geral.
A despeito da enorme e relevante contribuição científica estabelecida por Einstein, seus estudos continuam a suscitar acirrados debates no campo da Cosmologia e da Gravitação. Dentre os inúmeros debatedores acerca da contribuição de Einstein, identificamos três e tão-somente três dentre as inúmeras contribuições existentes e que questionam os feitos de Albert Einstein. Dentre esses citamos os questionamentos de Pontes de Miranda, jurista e filósofo alagoano. O primeiro brasileiro a debater e a questionar já em 1928, os fundamentos filosóficos e os desdobramentos fenomenológicos da contribuição de Albert Einstein.
Em segundo lugar, e já mais atualmente elencamos os questionamentos de Marcos Cesar Danhoni Neves, secretário regional da SBPC- Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, seccional do Paraná, físico e professor da Universidade Estadual de Maringá. Danhoni apresentou em 2005, trabalhos no X Simpósio Nacional de História da Ciência e de Tecnologia em Belo Horizonte e no III International Congress “ Science & Democracy” em Nápoles, Itália com o título de: Enigma of Sobral. E por fim, e também mais recentemente elencamos os questionamentos e interpretações de Peter Galison, físico e professor de Física e de História da Ciência na Universidade de Harvard, nos Estados Unidos.
Não é mais necessário ressaltar que os interlocutores e debatedores das idéias de Einstein são muitos desde 1905. Não menos importante também é necessário ressaltar que as interpretações desses acerca da contribuição de Einstein são discordantes. Ora, esses entendem as interpretações de Einstein como inovadoras e surpreendentes, ora como ambíguas,enigmáticas e paradoxais. Aqui cabe voltarmos à intrigante pergunta no âmbito de nossa proposta que é: o que torna a Teoria da Relatividade Geral, por um lado, tão surpreendente e ao mesmo tempo tão enigmática? Com o objetivo de discutirmos essa e as questões anteriormente enumeradas, ressaltamos que nossa contribuição discute os contextos originários do conceito de relatividade contextualizado em torno do eclipse total do sol.
É importante ressaltar que uma mensuração desse evento na mecânica de Albert Einstein foi pensada ser realizada primeiramente na cidade e região da Criméia, na Rússia em 1918. Mas que posteriormente, tomou-se a cidade de Sobral, em 1919, como lugar de mensuração, de prova e de confirmação da Teoria da Relatividade Geral. Conforme propomos discutir na pergunta de número 9 apresentada na Introdução. E que propomos discutir mais detalhadamente quando da realização nesse estudo.
3 – OBJETIVO PRINCIPAL
Conforme o título desse projeto indica, o objetivo principal de nossa proposta é: 1) estudar a imaginação simbólica na mecânica de Albert: um estudo do imaginário e do simbólico no conceito de relatividade. Um estudo do processo de simbolização na mecânica de Albert Einstein segundo as Antropologias do Imaginário e do Tempo. Com objetivo de identificarmos e discutirmos os contextos que estruturam o conceito de relatividade na mecânica de Einstein.
3.1 – OBJETIVOS ESPECÍFICOS
Os objetivos específicos que resultam do objetivo principal acima identificado são: 1) refletir acerca do conceito de relatividade a fim de discutirmos os contextos de estruturação desse conceito que toma o eclipse total do sol de 1919, como fenômeno natural ocorrido em Sobral. Um estudo do conceito de relatividade que toma o eclipse total do sol como método de prova,de mensuração e de confirmação; tal como proposto por Einstein como métodos de sua Teoria da Relatividade Geral.
2)interpretar o conceito de relatividade segundo as Teorias antropológicas do Imaginário e do Tempo a fim de discutirmos como esse conceito se estrutura a partir das relações entre imaginário e o simbólico. 3) discutir os contextos de origem e que estruturam o conceito de relatividade;esses como os principais contextos e norteadores contextos do conceito de relatividade na mecânica de Albert Einstein. 4) Assim, propomos fundamentar a relação entre imaginário e o simbólico na Física e mecânica de Einstein. Dito de outro modo, afirmar que se trata de estudar a relação entre memória e o imaginário na Mecânica de Albert Einstein.

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